25/02/2026

Paiva, Raquel. Política: palavra feminina

Este livro é um dos resultados obtidos com a pesquisa desenvolvida pelo Laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária – Lecc. Inicialmente, pelo menos para os mais desavisados, pode pairar alguma dúvida sobre o que levaria um centro de pesquisa especializado em comunicação comunitária a trafegar pela correlação de gênero com política partidária. Por isso, alguma explicação é necessária, embora essa correlação nunca tenha se colocado para os membros do Lecc como uma dúvida, habituados que estamos a entender comunicação comunitária pelo viés da proposta de intervenção nos discursos sociais e na produção de mídia, por parte de todos os grupos minoritários, excluídos do privilégio decisório das corporações midiáticas.

No caso em pauta, foi marcante perceber, inicialmente, que, ainda nos dias atuais, é possível se deparar, principalmente nas colunas sociais e colunas políticas, com matizes depreciativas para com as mulheres-políticas. Esse foi o início da pesquisa, ou seja, notar que, com freqüência, as colunas se dedicam a falar das mudanças de penteados das candidatas, de suas roupas, de partes de seus corpos ou de assuntos relativos às suas vidas privadas, enquanto deixam de dispensar aos homens-políticos o mesmo tratamento. Para esses, a dimensão pessoal comparece apenas para ressaltar aspectos valorizados pela cultura masculina, como o mito do latin lover contumaz.

A partir dessa constatação, a preocupação: num ano eleitoral (2006) e com tantas mulheres postulantes e, pela primeira vez, uma candidata a presidente da República, qual seria o comportamento da mídia? Essa foi a questão inicial e, como envolvia uma equipe, foi necessário buscar recursos, inscrevendo-a na disputa pelo edital  Universal do CNPq. Vencemos. A pesquisa teve início em julho de 2006 e foi apresentada à comunidade acadêmica, tanto em congressos da área quanto em eventos freqüentados pelos pesquisadores integrantes do projeto, que apresentaram resultados parciais e suas interpretações. A pesquisa comportou uma revisão bibliográfica, uma parte empírica (leitura diária dos jornais pesquisados, tabulação e análise) e, ainda, entrevistas com as candidatas que mais se destacaram. Os então alunos de Jornalismo Gabriela Nóra, Jean de Souza, Giuliana Santos, Isabelle Domenique e Adriano Belisário realizaram as entrevistas e a tabulação dos dados, que recolheram nos jornais O Globo e Folha de S.Paulo. A jornalista Fernanda Lacombe ajudou na pesquisa de levantamento histórico. Eu procedi à análise dos dados, sempre com a participação dos alunos.

Finalmente, desde o final de 2007, me dediquei a selecionar o material pesquisado e a preparar este livro, com o fomento do CNPq. O pronome “eu” deve ser lido
como um deítico que assinala a liderança da tarefa, porque a pesquisa implicou um coletivo de colaboradores, um “nós”, portanto. A todos os que participaram deste
trabalho, desde as entrevistadas, o meu muito obrigada e o desejo de que este seja mais um material destinado a contribuir para a superação de um estado de privilégios e estereótipos ainda tão arraigado no nosso país. Nosso desejo – no fundo, um desejo político não partidário – é que as mulheres possam trafegar com desenvoltura, livres de preconceitos, pelo campo da representação popular junto ao Poder de Estado. Na verdade, em termos de consciência coletiva global e contemporânea, isto é muito mais do que um voto individual: o ranking sobre igualdade de gêneros publicado pelo Global Gender Gap Report (2001) se baseia em quatro dimensões – saúde, educação, emprego e presença na política. Pessoalmente, intuímos que a política de perfi l masculino está com seus dias contados. E por todos os lados, não apenas no nosso país. A entrada massiva das mulheres no cenário do Legislativo e do Executivo pode trazer um enorme diferencial, desde que consigam atuar valorizando o seu perfi l histórico de atuação não-violenta no mundo, compatível com as reflexões dos filósofos da pós-modernidade (Richard Rorty, Gianni Vattimo, por exemplo) sobre a debolezza ou o enfraquecimento das predicações de violência.

Como citar:

Paiva de Araújo Soares, Raquel. Política: palavra feminina. 2008. Rio de Janeiro: Mauad Editora. https://doi.org/10.5281/zenodo.18723820