08/08/2018
Laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária (LECC-UFRJ) participa da Rede de Comunicação Comunitária e Agroecologia
O Laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária (LECC) designa um grupo de professores e alunos de Graduação e Pós-Graduação da Escola de Comunicação da UFRJ, voltados para a experimentação pedagógica e a pesquisa da comunicação articulada aos modos de comunidade e de solidariedade que não se acham inteiramente abrangidos pelo que contemporaneamente se entende como sociedade.
A diferença impõe-se na diversidade das ordens de modelização do organismo social:
- A modelização societária é a sociedade liberal moderna com seus aparelhos de Estado e uma infraestrutura institucional de mediação política e negociação pública, a que se pode dar o nome de sociedade civil. Nela se concentram todas as instituições e representações vinculadas ao poder de Estado e à organização da produção, destinadas a normalizar os indivíduos e produzir hegemonia, isto é, dominação por consenso.
- A outra modelização é consentânea a formações humanas que, embora sob a égide jurídica dos dispositivos societários, situam-se à margem da centralidade produtiva da economia moderna, da produção de bens, desejos e identidades socialmente valorizáveis. Pode-se chamá-la de modelização comunitária, para destacá-la da dialética institucional das forças sociais que lastreiam o poder de Estado.
Comunitário não é, no caso, um adjetivo absoluto, já que outros tipos de designação (relações sociais de encadeamento, primárias, etc.) podem ser avocados para as exceções ao domínio societário. Mas se reserva ao termo, aqui, o sentido de uma modelização de sociabilidade caracterizada por uma forte dinâmica de identificação, diferenciação e aproximação — portanto, por um sentimento de identidade grupal — que pode até mesmo prescindir de território físico, mas que normalmente se reconhece pelas marcas enunciativas de lugar.
Lugar, em vez de local: «O lugar tem a cara de gente, revelando distintas arenas de demandas, de conflitos, de reivindicações por melhoria e qualidade de vida. Denso, o lugar é a vida das pessoas em espaço e tempo que, dependendo das circunstâncias, pode ser o bairro, o município ou a região. O lugar é, sem dúvida alguma, onde se enraízam as experiências, as táticas, os métodos e as práticas simples que formam uma biblioteca invisível de soluções para a redução da pobreza.
Precisamos aprender a substituir o «local» por «lugar». O lugar remete à noção de territorialidade que não é sinônimo de estado ou de município e frequentemente está relacionada aos espaços intermediários; de um lado, intermunicipal; de outro, intramunicipal» (Cf. Ilka Camarotti e Peter Spink in Que País é Este? Ed. Cortez).
Os espaços intermediários costumam ser também os das mediações socioculturais, de natureza comunitária. Há problemas teóricos e políticos na ideia de comunidade. Mas aqui se entende, antes de mais nada, que o munus de communis ou communitas é a obrigação radical que se tem para com o outro. É o imposto originário a pagar.
Comunidade é, assim, o conceito da originariedade do dar e receber, da troca simbólica, do identificar e diferenciar-se. Quando se diz que a modernidade extinguiu a comunidade, está-se dizendo, na verdade, que na modernidade só existe a troca monetária, colocada sob a égide de um mercado absoluto.
Sob o influxo do capitalismo mercantilista, a modernidade acabou por rejeitar a comunidade. O processo civilizatório da modernidade ocidental repôs os conflitos inerentes à vida comunitária numa sociabilidade caracterizada pela separação dos indivíduos e regida por laços jurídicos.
O fato societário é exatamente este: indivíduos autônomos e isolados, mas juridicamente relacionados. A sociedade tem mais a ver com immunitas do que com communitas. Isto não quer dizer, entretanto, que desapareça o vínculo comunitário. Ele permanece manifesto e latente nas relações de família, de vizinhança, mas também em toda e qualquer formação humana que explicite a sua dinâmica de identificação e diferenciação.
Na sociedade liberal clássica, o fato comunitário era controlado principalmente pela sociedade civil, que Hegel entendia como o conjunto das instituições capitalistas para a organização do trabalho. Nela, destaca-se o papel sociabilizante e educativo do trabalho. Na contemporaneidade, emergem outros dispositivos de neutralização das tensões comunitárias, realçando a produção de desejos, identidades e necessidades.
O principal deles é a mídia, que se constitui como uma nova forma de vida, um novo bios, uma esfera existencial inteiramente regida pela economia monetária. Esta forma contemporânea, apesar de simular a naturalidade do mundo, afasta-se cada vez das condições concretas ou real-históricas de existência, movendo-se portanto numa esfera cada vez mais abstrata com relação ao trabalho e às formas concretas de existência.